Há já muito tempo que queria ler este livro. Desta autora tão
especial, só conhecia a poesia (absurdamente magnífica) e sabia que teria de
reunir algum fôlego para ler este livro, dado o seu carácter denso e sombrio.
Não sei se o fiz na melhor altura. Cismei que haveria de o ler ainda antes de o
ano acabar e assim foi. A única coisa que posso dizer, para começar, é que este
livro deu cabo de mim.
The Bell Jar, título
original e, na minha opinião, bem mais sonante do que a tradução, é uma espécie
de autobiografia. A sua primeira edição foi publicada sob o pseudónimo de
Victoria Lucas, dada a veracidade de tudo o que ali estava escrito. E aquilo
que encontramos nesta obra é nada mais do que uma mulher em profunda dor. Dor emocional.
Aquela dor tipo moedeira, constante, persistente, que aparece de mansinho, sem
razão nem porquê, e que, aos poucos, se vai instalando, criando raízes e
alastrando, tal e qual uma erva daninha. Uma dor no mais profundo do ser,
naquele cerne só nosso, onde reside muito daquilo que constitui a nossa
essência. Esther, a protagonista desta obra, é uma mulher em dor. E não consigo
definir melhor aquilo que sinto, a não ser assim.
Toda essa dor instalada transforma-se
numa depressão profunda e numa tentativa de suicídio falhada, que conduz Esther
ao internamento numa clínica psiquiátrica. E aqui somos também confrontados com
a realidade de um internamento psiquiátrico, com os tratamentos tantas vezes
experimentais e desajustados, com o preconceito de toda uma sociedade que,
desde sempre, tratou os doentes mentais com desconfiança e desdém.
Mas aquilo que permaneceu
de todo este livro foi a dor. A dor gritante, mas calada, de uma mulher que não
conseguia entender o porquê desse mesmo sofrimento. Aquilo que me fez reflectir
foi precisamente isto: até que ponto a melancolia que nos caracteriza pode
mascarar uma dor latente, uma doença à espreita? Se assim for, não seremos todos
loucos? Ou doentes? Ou doídos (acento no i)?
Gostava de conseguir
escrever mais alguma coisa, transmutar em palavras o rol de emoções que este
livro me causou. Sei que vou andar uns tempos a pensar nisto, a analisar, a
reler partes e a deixar-me quase que contaminar por esta estória (que não é só
uma estória). Mas, por ora, é só isto que consigo dizer.
Assim como assim, recomendo
muito a leitura desta obra. Mas, atenção, é uma obra pesada, densa, triste.
Faz-nos mergulhar em lugares-sombra que temos cá dentro. Faz-nos reflectir e
perder algumas hortas de sono. Mas acredito que valha a pena. E, para terminar,
deixo um pequeníssimo e simples excerto que resume aquilo que acabei de
escrever:
“Para a pessoa dentro da campânula
de vidro, vazia e imóvel como um bebé morto, o próprio mundo não passa de um
sonho mau.”
Quem já leu este livro?
Partilhem comigo a vossa opinião. Seria bom poder trocar ideias sobre esta
panóplia de emoções.

Sem comentários