A Campânula de Vidro || Sylvia Plath




Há já muito tempo que queria ler este livro. Desta autora tão especial, só conhecia a poesia (absurdamente magnífica) e sabia que teria de reunir algum fôlego para ler este livro, dado o seu carácter denso e sombrio. Não sei se o fiz na melhor altura. Cismei que haveria de o ler ainda antes de o ano acabar e assim foi. A única coisa que posso dizer, para começar, é que este livro deu cabo de mim.

The Bell Jar, título original e, na minha opinião, bem mais sonante do que a tradução, é uma espécie de autobiografia. A sua primeira edição foi publicada sob o pseudónimo de Victoria Lucas, dada a veracidade de tudo o que ali estava escrito. E aquilo que encontramos nesta obra é nada mais do que uma mulher em profunda dor. Dor emocional. Aquela dor tipo moedeira, constante, persistente, que aparece de mansinho, sem razão nem porquê, e que, aos poucos, se vai instalando, criando raízes e alastrando, tal e qual uma erva daninha. Uma dor no mais profundo do ser, naquele cerne só nosso, onde reside muito daquilo que constitui a nossa essência. Esther, a protagonista desta obra, é uma mulher em dor. E não consigo definir melhor aquilo que sinto, a não ser assim.

Toda essa dor instalada transforma-se numa depressão profunda e numa tentativa de suicídio falhada, que conduz Esther ao internamento numa clínica psiquiátrica. E aqui somos também confrontados com a realidade de um internamento psiquiátrico, com os tratamentos tantas vezes experimentais e desajustados, com o preconceito de toda uma sociedade que, desde sempre, tratou os doentes mentais com desconfiança e desdém.

Mas aquilo que permaneceu de todo este livro foi a dor. A dor gritante, mas calada, de uma mulher que não conseguia entender o porquê desse mesmo sofrimento. Aquilo que me fez reflectir foi precisamente isto: até que ponto a melancolia que nos caracteriza pode mascarar uma dor latente, uma doença à espreita? Se assim for, não seremos todos loucos? Ou doentes? Ou doídos (acento no i)?

Gostava de conseguir escrever mais alguma coisa, transmutar em palavras o rol de emoções que este livro me causou. Sei que vou andar uns tempos a pensar nisto, a analisar, a reler partes e a deixar-me quase que contaminar por esta estória (que não é só uma estória). Mas, por ora, é só isto que consigo dizer.

Assim como assim, recomendo muito a leitura desta obra. Mas, atenção, é uma obra pesada, densa, triste. Faz-nos mergulhar em lugares-sombra que temos cá dentro. Faz-nos reflectir e perder algumas hortas de sono. Mas acredito que valha a pena. E, para terminar, deixo um pequeníssimo e simples excerto que resume aquilo que acabei de escrever:

“Para a pessoa dentro da campânula de vidro, vazia e imóvel como um bebé morto, o próprio mundo não passa de um sonho mau.”

Quem já leu este livro? Partilhem comigo a vossa opinião. Seria bom poder trocar ideias sobre esta panóplia de emoções.

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