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A Farmácia Literária || Fredo - Ricardo Fonseca Mota


Indicações Terapêuticas: Sensação de inadequação ao tempo e ao espaço; défice de ternura; manifesta falta de empatia; desorientação espácio-temporal; síndrome do “sabe tudo”; solidão; sobranceria.

O que precisa de saber antes de ler Fredo: Este é um livro sobre amizade, sobre amor e sobre solidão. Fredo e Adolfo Maria, dois amigos improváveis. O primeiro, um sobrevivente de guerra, na casa dos oitenta, que teve quatro famílias, um grande amor e que vive os últimos dias sozinho, a ler. O segundo, um jovem do interior que vê em Lisboa o caminho (ou a fuga) para ser o que sente, para correr atrás do sonho enquanto tenta encontrar-se a si mesmo. Pelas ruas de Lisboa, entre o passado e o presente, estes dois amigos vão trocando ideias e desabafos, vão contando e escutando histórias, vão caminhando em direcção a lugar algum, a não ser aquele recanto de conforto que uma presença amiga pode dar. É um livro de uma beleza profunda, ternurento sem ser lamechas. É uma chamada de atenção para a solidão absurda em que tantas pessoas vivem mergulhadas sem ninguém dar por ela.

Como utilizar: Aconselha-se a leitura deste livro de uma assentada. Caso não seja possível, poderá ler o número de páginas que a sua miopia aguentar.

Efeitos secundários: Dependência moderada a grave; sobrecarga de ternura; elevação dos níveis de açúcar na alma; agravamento de sintomatologia relacionada com a passagem do tempo; sentimento de orfandade após o seu término.

Se ler mais do que deveria: É aconselhado fazer uma pausa de cinco a dez minutos, beber um chá de tília ou jasmim (a acompanhar com uma fatia de bolo caseiro!) e retomar a leitura logo que possível.

Em caso de agravamento ou persistência dos sintomas, consulte a biblioteca ou a livraria mais próxima!

A Farmácia Literária || O Rouxinol - Kristin Hannah



Indicações Terapêuticas: Lapsos de memória; esquecimento; aversão à história mundial; estados de confusão mental; tendência ao extremismo.

O que precisa de saber antes de ler O Rouxinol: Este é um livro que narra factos ocorridos durante a invasão francesa aquando da segunda guerra mundial. Acompanhamos a história de Isabelle e Vianne, duas irmãs que se vêm obrigadas a lutar pela sobrevivência. Isabelle junta-se à Resistência Francesa, acabando por sofrer as mais duras provações. Vianne vê o marido partir para a guerra, ficando sozinha à mercê das invasões nazis, mas nem por isso deixando de fazer aquilo que o seu coração acha certo. Duas mulheres, a mesma coragem, não fossem elas, as mulheres, o alicerce e a base de tantas guerras. Muitas vezes em silêncio, nos bastidores, arquitectando planos, espiando, encobrindo, mentindo. Quando a guerra acabou, ninguém as coroou, ninguém as prestigiou, ninguém lhes reconheceu o valor, a coragem e a ousadia que fizeram a diferença. Isabelle e Vianne são uma amostra de todas as mulheres de guerra, que tiveram um papel tão ou mais importante do que qualquer homem ou soldado. "Os homens contam histórias. As mulheres seguem em frente. Para nós, foi uma guerra vivida nas sombras. Quando acabou, não tivemos direito a paradas, a medalhas ou a referências nos livros de História. Fizemos o que tínhamos de fazer durante a guerra, e quando ela acabou, apanhámos os cacos e refizemos as nossas vidas."

Como utilizar: Aconselha-se a leitura deste livro em lugares com poucas (ou nenhuma) pessoas, numa dosagem não superior a 100 páginas por dia.

Efeitos secundários: Consternação, revolta, empatia, possível desenvolvimento de maus instintos relativamente às pessoas que desencadearam esta e outras guerras. Possíveis crises de choro em locais públicos, que poderão causar algum embaraço.

Se ler mais do que deveria: É aconselhado fazer uma pausa, respirar fundo, comer um doce e retomar a leitura.

Em caso de agravamento ou persistência dos sintomas, consulte a biblioteca ou livraria mais próxima!

#apoesiacura || Já não me deito em pose de morrer | Cláudia R. Sampaio


A poesia de Cláudia R. Sampaio é, para mim, uma poesia que cura. É uma poesia que nos adentra e nos leva. Uma poesia que nos faz parar, sentar e ficar nas palavras. Só ficar nas palavras. É uma poesia que dá frio, como um mergulho num mar de Inverno. Porém, todos sabemos quão sadio pode ser um mergulho assim.

A poesia de Cláudia é ácida, efervescente, quase amarga, por vezes. Como aqueles medicamentos que se dissolvem na água e que custam beber, deixando um travo incómodo na língua, uma sensação que perdura, uma estranheza que fica. No entanto, são medicamentos eficazes, assertivos no tempo de dispersão e actuação num organismo doente.

A poesia de Cláudia é uma poesia que cura. Porque nos leva para dentro. Pega-nos na mão fria e leva-nos para dentro, para dentro de nós. E é cá dentro que tudo acontece. É dentro de nós que a cura começa. É dentro de nós, por vezes um dentro escuro e frio, que a alquimia se inicia (a tal alquimia de que ontem falava). É neste dentro que tudo pode ser feito, que tudo pode ser curado. É neste dentro que olhamos as feridas de frente, feridas abertas e sangrantes, ou feridas ressequidas, porém infectadas. É neste dentro que encontramos a dor, tantas vezes calada ou disfarçada, uma dor que é preciso gritar para libertar.

A poesia de Cláudia leva-nos para esse lugar. Para o real. Para a matéria. Para a carne. Para a dor. Para a loucura. Para o cheiro fétido da condição humana. Para a nossa vida tantas vezes iludida. Por isso, a poesia de Cláudia é uma poesia que cura.

Neste conjunto de poemas escolhidos, com a mão de um outro “curador” (Valter Hugo Mãe), encontramos vários princípios activos e várias doses, indicados para esta actual maleita de andar cá só porque sim. Estes poemas terão acção rápida, contudo o seu efeito perdurará, ecoando em cada célula, ribombando e fazendo eco no tal dentro para onde somos levados. Efeitos secundários? Talvez uma ligeira e benigna dependência pela poesia desta poeta fenomenal.

Aproveito para agradecer à Porto Editora, por ter aceitado ser parceira neste meu projecto #apoesiacura.

E não se esqueçam disto: por vezes, a cura está ao alcance de um poema.

As aves não têm céu || Ricardo Fonseca Mota


Mais um jovem autor português, o qual não conhecia, embora este seja já o seu segundo livro (o primeiro é Fredo, obra premiada com o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís 2015). Quando a Porto Editora me deu a conhecer esta novidade, fiquei deveras curiosa, não fosse eu admiradora confessa de autores portugueses e do que de bom por cá se faz.

As aves não têm céu apresenta-nos a história de Leto, um homem só e atormentado pela culpa e pelo desespero, e das poucas pessoas com quem ele convive nos seus dias e noites marcados por uma quase loucura. Depois de ter perdido a filha de uma forma brutal, Leto entrega-se à tristeza e à solidão, à raiva e à dor, à vontade de morrer e à necessidade de manter-se vivo para poder sofrer todas as dores que ele acredita merecer. No fundo, estamos perante um homem no limite. No limite da dor, da raiva, da revolta, da culpa. No limite de si próprio. E, como sabemos, o limite de nós próprios pode ser um lugar muito assustador.

Quem já me acompanha há algum tempo, sabe o quanto eu gosto de obras carregadas de melancolia e reflexões sobre a vida e a morte. É uma forma de eu própria fazer as minhas catarses (integrar, reflectir e libertar). Esta obra (que por diversas vezes me fez lembrar as narrativas de João Tordo e Paul Auster), apesar de se encaixar nesse género, não me tocou particularmente. Não consegui sentir empatia com nenhum dos personagens, nem com as suas dores. Não consegui adentrar a estória, creio que foi isso. Porquê? Não sei, talvez por, lá está, estar um pouco saturada de obras pesadas nos últimos tempos.

Contudo, não deixo de recomendar a leitura deste livro. Principalmente por ser um autor português e porque considero importante apoiar os nossos autores.

Resta-me agradecer à Porto Editora por, uma vez mais, ser parceira nas minhas descobertas literárias.

Todos os Nomes || José Saramago


A minha viagem pelo mundo Saramaguiano continua. E continua muito bem. Desta feita, foi esta a obra escolhida para me acompanhar nos últimos dias. Ainda não tinha lido e posso dizer que adorei.

Nesta obra, acompanhamos o Sr. José, auxiliar de escrita da Conservatória Geral do Registo Civil, instituição de suma importância, na sua demanda em busca de uma mulher desconhecida, cujo verbete de registo encontra, por acaso, numa das suas incursões nocturnas à Conservatória, a fim de continuar a sua colecção de registo de figuras famosas. Não se assustem com a complexidade aparente desta narrativa, pois a mesma é até bastante simples e fluida. Reflectindo melhor, não tão simples assim, ou não estivéssemos nós a falar do nosso Nobel.

Mais do que a busca do Sr. José (com os seus pensamentos para lá do obsessivo) por uma desconhecida, aquilo que realmente esta obra nos mostra é a fuga de um homem da sua própria solidão. Porque a solidão (que não confundamos com solitude) é dolorosa. Instala-se de mansinho, confundindo-nos os sentidos e, quando damos por ela, já se apoderou de tudo o quanto em nós existe, ao ponto de ocupar quase todo o ar de que dispomos para respirar. E quando assim é, a única solução é fugir. Fugir para a frente, munindo-nos das desculpas ou missões mais estapafúrdias, tudo em prol de uns escassos momentos de excitação e vontade de viver.

É mais uma obra belíssima, que me deixou completamente enovelada numa nuvem de contentamento. Só não queria que tivesse chegado ao fim. Não queria ter deixado o Sr. José e a mulher desconhecida e a senhora do rés-do-chão direito e até o execrável conservador entregues outra vez à sua solidão.

Assim sendo, só posso recomendar muitíssimo a leitura deste livro do nosso Maior, que nunca desilude.

Uma Menina está perdida no seu século à procura do Pai || Gonçalo M. tavares


Esta foi a minha leitura de estreia com este autor português. Há já algum tempo que Gonçalo M. Tavares “pairava” sobre a minha estante e então, neste início de ano, decidi ler uma das suas obras. Mas será que esta obra foi uma boa escolha para ser a pioneira?

Neste livro, acompanhamos a demanda de Hanna, uma menina com trissomia 21 perdida na rua à procura do pai, e de Marius, o homem com pressa e cheio de fantasmas à sua volta, que decide ajudá-la. Esta é, supostamente, a estória central (se é que podemos dizer que esta obra tem uma estória central). Supostamente porque, ao longo do percurso de Hanna e Marius, vamos encontrando, tal como eles, um rol de personagens peculiares, cada qual com a sua própria história, todas elas inclusas num dos períodos mais marcantes da história comum de todos nós. Confuso? Talvez. Foi precisamente assim que me senti quando cheguei ao fim, com a sensação de que não tinha conseguido apreender esta obra no seu todo.

No entanto, se me pedissem para descrever este livro de forma sucinta, eu diria que é uma mistura de ternura e crueza. A dócil Hanna contrastando com a crueza de um mundo que não compreende e que não a compreende. Ademais, todo este livro, para quem é dado a reflexões como eu, é uma fonte inesgotável de metáforas e alusões pouco óbvias. Dei por mim a voltar atrás algumas vezes, para tentar apreender o verdadeiro sentido das palavras (e nem sempre tive sucesso).

Em suma, posso dizer que gostei desta obra, desta estória e da história nela contida. Tenho feito leituras bastante densas, e esta talvez não tenha vindo na melhor altura, pois agigantou essa minha melancolia. Contudo, recomendo muito a sua leitura e estou muito curiosa para ler outras obras de Gonçalo M. Tavares.

Assim sendo, se já leram outros livros deste autor, deixem-me as vossas sugestões. E se já leram esta obra em particular, partilhem comigo a vossa opinião, pode ser?

Paisagem com mulher e mar ao fundo || Teolinda Gersão


Mais uma obra que deu cabo de mim. Ainda não refeita de uma das últimas leituras, também ela duríssima, decidi ler esta obra e fiquei, uma vez mais, emocionalmente esgotada.

É-me difícil encontrar palavras para escrever sobre este livro. Logo eu, que sou de palavras, não consigo encontrar as certas para traduzir o que sinto neste momento. Tristeza, melancolia, raiva gritante, inconformismo, revolta, tudo emoções e sentimentos que esta história provocou em mim. Porque é a história de uma das épocas mais negras, mais horríveis, do nosso país. Porque é a história dos nossos antepassados, pais e avós e bisavós, que viveram num Portugal profundo, definhado, metido para dentro, pobre de espírito e de razão, um Portugal com medo, a tremer de medo, um Portugal calado até às entranhas, salvo aqueles que, mesmo no silêncio sepulcral, ousaram gritar.

Este livro é precisamente um relato do que se passou nesse época tenebrosa e vergonhosa. É a história e a tristeza profunda de uma mulher e mãe, que perdeu o marido para as garras da pide (desculpem, mas não consigo escrever isto em maiúsculas) e o filho para a guerra do ultramar. É o desespero profundo de uma mulher que só queria ser livre e se vê afogada num mar de privações, de dor e de uma raiva gritante que conseguimos sentir na pele.

Durante esta leitura, foram muitas as vezes em que tive de parar, respirar fundo e conter a náusea. E isto não é muito comum em mim. Tenho uma certa resistência a histórias duras, mas esta mexeu comigo de uma forma visceral. Não sei bem porquê, ou talvez até saiba, mais isso são já outros quinhentos.

Para finalizar este meu relato, deixo-vos com um excerto, que vos dará um pequeno vislumbre daquilo que podem encontrar neste livro:
“Acordar de noite e lutar contra o mar. Impor, sobrepor, a minha voz à sua. Acima do seu canto o meu grito, mais alto que a sua música a minha raiva, o meu choro, a minha discordância. Atirar pedras, facas, contra o mar. Fechar contra ele todas as portas e janelas. Contra o seu infinito a minha finitude.”

Resta-me agradecer à Porto Editora, por me ter disponibilizado esta obra. Foi uma leitura marcante, que não esquecerei tão cedo. E é claro que recomendo muito a sua leitura. Apesar da sua densidade, são estas leituras que nos fazem reflectir, que nos fazem recordar a história para não voltar a repeti-la.