Paisagem com mulher e mar ao fundo || Teolinda Gersão


Mais uma obra que deu cabo de mim. Ainda não refeita de uma das últimas leituras, também ela duríssima, decidi ler esta obra e fiquei, uma vez mais, emocionalmente esgotada.

É-me difícil encontrar palavras para escrever sobre este livro. Logo eu, que sou de palavras, não consigo encontrar as certas para traduzir o que sinto neste momento. Tristeza, melancolia, raiva gritante, inconformismo, revolta, tudo emoções e sentimentos que esta história provocou em mim. Porque é a história de uma das épocas mais negras, mais horríveis, do nosso país. Porque é a história dos nossos antepassados, pais e avós e bisavós, que viveram num Portugal profundo, definhado, metido para dentro, pobre de espírito e de razão, um Portugal com medo, a tremer de medo, um Portugal calado até às entranhas, salvo aqueles que, mesmo no silêncio sepulcral, ousaram gritar.

Este livro é precisamente um relato do que se passou nesse época tenebrosa e vergonhosa. É a história e a tristeza profunda de uma mulher e mãe, que perdeu o marido para as garras da pide (desculpem, mas não consigo escrever isto em maiúsculas) e o filho para a guerra do ultramar. É o desespero profundo de uma mulher que só queria ser livre e se vê afogada num mar de privações, de dor e de uma raiva gritante que conseguimos sentir na pele.

Durante esta leitura, foram muitas as vezes em que tive de parar, respirar fundo e conter a náusea. E isto não é muito comum em mim. Tenho uma certa resistência a histórias duras, mas esta mexeu comigo de uma forma visceral. Não sei bem porquê, ou talvez até saiba, mais isso são já outros quinhentos.

Para finalizar este meu relato, deixo-vos com um excerto, que vos dará um pequeno vislumbre daquilo que podem encontrar neste livro:
“Acordar de noite e lutar contra o mar. Impor, sobrepor, a minha voz à sua. Acima do seu canto o meu grito, mais alto que a sua música a minha raiva, o meu choro, a minha discordância. Atirar pedras, facas, contra o mar. Fechar contra ele todas as portas e janelas. Contra o seu infinito a minha finitude.”

Resta-me agradecer à Porto Editora, por me ter disponibilizado esta obra. Foi uma leitura marcante, que não esquecerei tão cedo. E é claro que recomendo muito a sua leitura. Apesar da sua densidade, são estas leituras que nos fazem reflectir, que nos fazem recordar a história para não voltar a repeti-la.

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