#apoesiacura || Já não me deito em pose de morrer | Cláudia R. Sampaio


A poesia de Cláudia R. Sampaio é, para mim, uma poesia que cura. É uma poesia que nos adentra e nos leva. Uma poesia que nos faz parar, sentar e ficar nas palavras. Só ficar nas palavras. É uma poesia que dá frio, como um mergulho num mar de Inverno. Porém, todos sabemos quão sadio pode ser um mergulho assim.

A poesia de Cláudia é ácida, efervescente, quase amarga, por vezes. Como aqueles medicamentos que se dissolvem na água e que custam beber, deixando um travo incómodo na língua, uma sensação que perdura, uma estranheza que fica. No entanto, são medicamentos eficazes, assertivos no tempo de dispersão e actuação num organismo doente.

A poesia de Cláudia é uma poesia que cura. Porque nos leva para dentro. Pega-nos na mão fria e leva-nos para dentro, para dentro de nós. E é cá dentro que tudo acontece. É dentro de nós que a cura começa. É dentro de nós, por vezes um dentro escuro e frio, que a alquimia se inicia (a tal alquimia de que ontem falava). É neste dentro que tudo pode ser feito, que tudo pode ser curado. É neste dentro que olhamos as feridas de frente, feridas abertas e sangrantes, ou feridas ressequidas, porém infectadas. É neste dentro que encontramos a dor, tantas vezes calada ou disfarçada, uma dor que é preciso gritar para libertar.

A poesia de Cláudia leva-nos para esse lugar. Para o real. Para a matéria. Para a carne. Para a dor. Para a loucura. Para o cheiro fétido da condição humana. Para a nossa vida tantas vezes iludida. Por isso, a poesia de Cláudia é uma poesia que cura.

Neste conjunto de poemas escolhidos, com a mão de um outro “curador” (Valter Hugo Mãe), encontramos vários princípios activos e várias doses, indicados para esta actual maleita de andar cá só porque sim. Estes poemas terão acção rápida, contudo o seu efeito perdurará, ecoando em cada célula, ribombando e fazendo eco no tal dentro para onde somos levados. Efeitos secundários? Talvez uma ligeira e benigna dependência pela poesia desta poeta fenomenal.

Aproveito para agradecer à Porto Editora, por ter aceitado ser parceira neste meu projecto #apoesiacura.

E não se esqueçam disto: por vezes, a cura está ao alcance de um poema.

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