O seu
primeiro thriller. Quando vi a primeira publicação alusiva a esta novidade, na
página da Gosto de Ler, fiquei num estado de quase histerismo. Sendo João Tordo
uma das minhas referências literárias, fiquei curiosíssima em relação a esta
sua estreia no universo dos thrillers. Contudo, algo me dizia que este não
seria mais um thriller, como tantos que, hoje em dia, proliferam por aí. E, uma
vez mais, a minha intuição foi certeira. Porque este não é, de facto, só um
thriller. É João Tordo a escrever sobre um crime e sobre os meandros da mente e
do comportamento humano, com a qualidade a que já nos habituou.
Em Setembro de 1998, na pacata vila de Chatlam, nos
EUA, Noah Walsh, um ex-milionário nova-iorquino, é brutalmente assassinado na
sua própria casa. A filha mais nova, encontrada com a arma do crime nas mãos, é
a principal suspeita. Um assassinato, um suspeito imprevisível e está lançado o
mote para uma investigação policial que, mais cedo ou mais tarde, irá apurar os
factos. Só que não. Não é por aí o caminho. Porque, para perceber tudo que
envolve e conduz a este desfecho, temos de recuar no tempo e perceber a
história e as estórias dos membros desta família.
Até aqui nada de novo. Um thriller aparentemente normal.
Mas, uma vez mais, estamos a falar de João Tordo. E, ao longo desta narrativa,
somos conduzidos pela sua mão até aos recônditos lugares que tornam as pessoas
naquilo que realmente são: humanos, com virtudes e defeitos, valores
consagrados e outros duvidosos, princípios rígidos e, por vezes, a falta
gritante de cada um deles. Nem tudo o que parece é. A forma pode ser muito
diferente do conteúdo. E há factos, situações, vivências que podem
perseguir-nos toda uma vida, como um braço a mais que nos foi colocado à nossa
revelia.
Até num thriller aparentemente banal, João Tordo
consegue fazer a diferença, mantendo aquilo que mais me agrada na sua escrita:
a melancolia, essa melancolia que envolve tudo o resto, uma espécie de espelho
daquilo que vai na alma de alguns de nós. Por isso é que também digo que voltar
a Tordo é também voltar a um lugar que me é familiar, a essa melancolia doce,
uma quase droga que é, talvez, o principal motor da minha criatividade.
Em suma, este poderia ser só mais um thriller. Mas é
muito mais do que isso. E é por isso que aconselho muito a sua leitura, até
para quem não é grande apreciador deste género literário. E também, claro, aos
devoradores de thrillers, pois encontrarão aqui um dois em um: um mistério por
resolver e a escrita maravilhosa deste nosso autor português.
Resta-me agradece muitíssimo à Gosto de Ler, por me ter
proporcionado esta leitura maravilhosa e por me ter permitido regressar à minha
própria escrita (sim, há estórias que nos inspiram a criar as nossas próprias
estórias).
Agora contem-me, quem já leu este livro? São
admiradores, tal como eu, de João Tordo?

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