As Intermitências da Morte || José Saramago




Influenciada pela querida Ana Lopes, senti uma grande vontade de regressar às obras de José Saramago, autor que tanto admiro e por quem tenho um respeito infindável. E de cada vez que volto a Saramago, volto a apaixonar-me irremediavelmente pela sua obra, pela sua pessoa e pela sua forma tão particular de olhar o mundo. É, também, uma espécie de regresso a um lugar de inquietação e questionamento que tenho em mim e do qual, por vezes, me afasto.

“No dia seguinte ninguém morreu”. É assim que começa esta obra. Num país sem nome, no início de um ano sem tempo, as pessoas deixam de morrer. O que, inicialmente, é encarado com euforia pela maioria da população, rapidamente se torna num problema, a partir do qual é desfiado um rol de inquietações, reflexões e conjecturas. Igreja, governo, máphia (com ph), hospitais, funerárias, companhias de seguros, todos têm uma palavra a dizer sobre o término da morte e todos puxam a si os seus interesses pessoais, independentemente das consequências que isso possa ter.

Ao longo desta obra, levados pela sábia narrativa de Saramago, somos confrontados com uma série de questões que nos fazem reflectir sobre os valores (ou a falta deles) da nossa sociedade e da humanidade em si. Perante qualquer desafio ou alteração, a prioridade de cada um continua a ser encontrar uma forma de tirar dividendos, num calculismo sem precedentes, num cinismo absoluto, descrito, uma vez mais, de forma irónica e mordaz como só o nosso nobel sabe fazer.

É por tudo isto que digo que voltar a Saramago é voltar à inquietação que mora cá dentro. É relembrar o porquê de todas as minhas dúvidas, revoltas, ideais e anseios. É voltar a um lugar de verdade, a partir do qual me edifiquei.

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