A melancolia das últimas horas. A premonição de mais uma passagem, de mais um ciclo encerrado, de mais um ano deixado para trás. Dias e dias com tanto. Com tanto de sol como de chuva. Com tanto de cor como de cinza. Com tantas prosas e tantos poemas. Com tantas dúvidas e tantos vagares. Com demoras previstas e esperas ao acaso. Mais um ano arrastado, no chão a meus pés, numa última súplica de ser recordado, embalsamado na estante, juntos dos livros, dos versos e dos quadros.
Dizer adeus ao velho ano com ternura nos dedos, com verdade nas palavras, com sonhos expressos num recorte fotográfico. Emoldurar, enfeitar, engrandecer. Registar, redefinir, recomeçar. Como um livro que termina e dá lugar ao sucessor, sem mágoa nem pranto, apenas a certeza do dever cumprido, do lugar riscado, da emoção contida.
Dizer adeus ao velho ano, quase já passado, na certeza das coisas boas que deixou, dos interiores que floresceram, das mãos que se agigantaram e dos abraços que foram lar. Um ano de tantos poemas e de um só e grande amor. De tanta descoberta em mares revoltos e de tanto serenar em rios doces. De tanto resvalar no pó da estrada e de tanto enaltecer o corpo e a alma. De tantas palavras no papel e de tantas outras ainda em gestação.
Adeus, ano já gasto. Mergulho no meu interior mais cheio, no meu peito mais pausado, no meu coração sempre em riste, na certeza de que o teu sucessor será tal qual uma epopeia, ou uma colectânea de inéditos, ou mesmo um poema que não mais terá fim. Sigo, de braços abertos, com versos desenhados na pele para receber o ano vindouro, que trará, por certo, a beleza contida naquela melodia quase inaudível de cada vez que se vira uma página.
Bom Ano!

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