À saída da Estação de São Bento, virando à direita e
atravessando a rua em direcção à Avenida dos Aliados, jaz – eterno, prestigiado
– o ardina. Mesmo ao lado, não menos eterno, um marco do correio, essa coisa
tão antiga que outrora servia para as pessoas depositarem as cartas (e os
amores, e as saudades, e as recomendações, e as tristes notícias, e até a
lembrança de pagamentos em falta). Entre os dois é o poiso certo, dia após dia,
do engraxador de sapatos. Ninguém lhe sabe o nome ou a idade, apenas que parece
jovem, apesar da fluência com que declama versos dos que já cá não estão.
Pelas
sete da manhã, em ponto, o engraxador de sapatos chega ao seu local de
trabalho. Cumprimenta o ardina, que a educação deve ser universal, e logo monta
o seu estaminé, que é como quem diz, o seu banquinho de sentar e o apoio onde
os vindouros clientes hão-de colocar os seus belos sapatos para engraxar.
Porque, apesar de o marco do correio já não ter utilidade, os homens deste país
não prescindem, ainda, de uma engraxadela nos seus sapatinhos de ir à missa
(como bom povo cristão que ainda representam).
É
com enorme alegria, até contagiante, que o engraxador de sapatos se abre para
cada novo dia. Trauteando os seus versos, assobiando melodias, sempre de
sorriso no rosto, sempre de semblante feliz, não fossem os olhos cor de mar,
deveras tristes, denunciar-lhe a falácia. Não advém da profissão tal tristeza,
mas antes da prisão que sente ao chão que pisa. Tempos houve em que quis ser
marinheiro, cruzar os mares, calcorrear novas terras, além do horizonte. Tempos
houve em que o seu lugar preferido era o porto de Leixões, onde via atracar as
grandes embarcações, sonhando com o dia em que ele próprio partiria, de mala e
boné, acenando ao cais e prometendo a uma mãe aflita ou a uma noiva chorosa que
haveria de dar notícias em breve. Mas quis a vida que não fosse marinheiro nem
partisse para além-mar. Em vez disso, tomou como profissão assear sapatos, que
são sinónimo de terra firme e, por isso mesmo, uma espécie de ponto final na
sua quimera de ser capitão.
Desde
que escolhera aquele local, na baixa portuense, que clientes não lhe faltavam.
Vinham de todos os cantos da cidade (da Foz, da Batalha, de Santo Ildefonso e
da Boavista) e a faixa etária rondaria os oitenta. Eram senhores de outros
tempos, com outros costumes, que se deslocavam de fato e gravata, ou de blaser
e pulôver, nos autocarros da stcp ou, sendo mais abonados, de táxi. Acorriam ao
engraxador de São Bento, como logo ficou a ser conhecido, pois corria o boato
(neste caso, verdadeiro) de que era o melhor que aquela cidade já vira.
Dizia-se que deixava os sapatos num brinco, espelhados e perfumados, quase que
poderiam servir de espelho de tão brilhantes que ficavam. Dizia-se ainda que o
engraxador usava produtos importados da India, daí o frenesim de aromas e
brilhos conferidos aos sapatos. (Talvez aqui o boato começasse a tornar-se
naquilo que realmente é). Por isso, trabalho não lhe faltava, ao contrário dos
sonhos, que iam minguando a cada ciclo lunar.
Certo
dia, pelas onze da manhã, enquanto organizava o seu material (incluindo os tais
frasquinhos vindos da India), o engraxador ouviu um restolhar no chão. Pensando
tratar-se de folhas secas caídas das parcas árvores que ainda restam por
aqueles lados, não fez caso e continuou o que estava a fazer. Mas aquele
restolhar vinha acompanhado de um perfume de alfazema e as folhas não cheiram a
alfazema. Ergueu o rosto e viu uma nobre senhora de longo vestido e sombrinha
na mão. Pensando que estava a enlouquecer, esfregou os olhos com ambas as mãos
(coisa que não se deve fazer, muito menos com as mãos cheias de graxa). Mas
aquela imagem continuava ali, diante dele, a sorrir, com duas covinhas no rosto
e os lábios de um tom ligeiramente carmim. Não querendo parecer mal-educado, o
engraxador levantou-se de um salto, tirou o boné, e cumprimentou a distinta
senhora, que por certo não viria para engraxar os sapatos (pois isso era um
assunto reservado aos homens, e neste país ainda de brandos costumes há
tradições que são para manter).
“Em
que posso ajudá-la, minha senhora?”
“O
meu nome é Liberdade e todos os dias o vejo desta praça aqui defronte.”
O
engraxador, com a crescente certeza de que estava mesmo a ficar louco, pois
jamais, em tantos anos de trabalho, havia visto aquela mulher por ali, voltou a
formular a pergunta:
“Em
que posso ajudá-la, minha senhora?”, acrescentando “Por certo quererá que
engraxe os sapatos ao seu marido ou, quem sabe, a um irmão, visto ser ainda
nova para ter filhos em idade de usar sapatos de engraxar.”
“Não
trago sapatos para engraxar, nem tenho marido ou irmãos. Sou sozinha no mundo e
nasci de parto difícil, pelo que fiquei filha solo. O meu nome é Liberdade e eu
é que posso ajudá-lo.”
Percebendo
cada vez menos do que se estava a passar, o engraxador apertou o boné com força
e só lhe ocorreu dizer:
“Mas
que nome tão bonito. Singular e original. Nunca antes conheci senhora com um
nome tão distinto. Só não entendo em que poderá ajudar-me, a mim, que sou um
simples engraxador de sapatos.”
“Dali
do meu lugar cativo, onde dia e noite me detenho, sei das vidas dos que aqui
passam, dos que ficam e dos que vão, dos que correm e dos que vagueiam, dos que
nada vêem e dos que tudo alcançam. Sei dos sonhos atirados por terra no final
de cada dia, quando autocarros apinhados de gente desembocam junto de mim
espectros de sonhadores, gente triste e desistente, que já se deu por vencida
pelo cansaço e pelas maleitas do tempo que não espera por ninguém. Poucos são
os que trazem olhos brilhantes no meio do rosto e um punhado de sonhos na
algibeira. São os únicos que em mim reparam, que me acenam ou piscam o olho,
como que a dizer que não me esquecem, quem me levam e me trazem a cada dia, a
cada noite, sempre na lembrança, nas palavras e nas acções. Os outros, de rosto
pálido e triste, passam por mim sem olhar, sem me notar, por mais que lhes
atravesse o caminho, por mais que lhes sussurre ao ouvido, por mais que lhes
puxe pelo braço e peça um minuto do seu tempo.”
E
o engraxador escutava, como se estivesse perante algo do outro mundo, entre o
fascínio e a incredulidade. E a Senhora Liberdade continuou:
“Todos
os dias também me detenho a olhar para si, apesar de nunca me retribuir o olhar
e os acenos. Sempre tão concentrado, sempre tão prestável, sempre tão
sorridente e sempre tão triste por dentro. Conheço os seus sonhos de mar, de
novos ares, de novos poisos. Conheço o seu desejo de liberdade, aquele que
teima reprimir a cada amanhecer, porque acredita que já não tem tempo para isso,
que já não tem idade para isso, que já não é homem de mar.”
Quando
ouviu isto, o engraxador sentiu que o seu coração palpitava e que duas lágrimas
se lhes formavam nos olhos. Lembrou-se do tempo em que passava os dias no cais,
a alimentar fantasias de criança, a fazer barquinhos de papel, que apetrechava
com sonhos e que atirava ao mar. E olhou para as suas mãos cheias de graxa
preta, tão diferente do azul de mar que tanto lhe dizia, que tanto o chamava.
Como
por magia, a Senhora Liberdade tirou de debaixo dos folhos do seu vestido, um
barquinho de papel. O engraxador estendeu o braço e ela colocou-o na palma da
sua mão, dizendo:
“Só
apareço uma vez na vida daqueles que não me vêem. É um tudo ou nada, uma
tentativa final. Se ainda assim não me enxergarem, nada mais posso fazer. Mas
vejo que consigo é diferente. Que me vê e que me sente. Que entende aquilo que
digo. Por isso, tome nas mãos este barquinho e faça dele uma embarcação de ir
para longe. Tome nas mãos este barquinho, igual a tantos que atirou ao mar, e
faça desse mar a sua casa de viver. Reanime a velha esperança e embarque, nem
que seja uma só vez. Tome-me o gosto e o sentido e faça de si um capitão de
águas fartas.”
Três
dias depois…
No
cais do porto de Leixões, com uma mala pequena ao lado, um homem de quem
ninguém sabe o nome ou a idade, de boné na cabeça e resquícios de graxa nos
dedos, aguarda pela embarcação que o há-de levar. Não sabe bem para onde, mas
sabe que quer ir, sentir as ondas por baixo dos pés e dentro do coração.
Uns
metros adiante, uma distinta senhora, de longo vestido e sombrinha na mão,
sorri e seca uma lágrima que escorre pelo seu rosto com covinhas, dizendo para
si mesma: “Enquanto houver quem troque a certeza da terra firme pelas ondas
revoltas do mar, haverá estórias por contar, poemas por declamar e motivos para
acreditar.”
por Catarina Vasconcelos

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