E na viragem do ano,
regressei a um lugar que me faz sempre muito feliz: a escrita de Valter Hugo
Mãe. Regressar às suas obras é como reencontrar conforto no caminho, uma
paragem para descansar e mergulhar mais fundo em mim, nos lugares recônditos
onde sombras e luz convivem e se (con)fundem. É também esta a magia dos livros
e das palavras: aproximar-nos de dentro.
Homens Imprudentemente Poéticos
é mais uma obra de excelência de Valter Hugo. É impossível desiludir-me com
este senhor. Neste livro, acompanhamos a vida de uma povoação longínqua no
Japão, onde a miséria e a simplicidade reinam e onde encontramos quatro
personagens peculiares: Ítaro, o artesão de leques; Matsu, a cega; Senhora
Kame, a mulher longínqua e a mãe perto; Saburo, o oleiro. Encontramos ainda a
floresta dos suicidas, que é descrita com uma ternura e uma beleza tal que me
desconcertou por completo. E também o monge imaterial, cujo rosto e corpo nunca
ninguém viu, mas cujas palavras são capazes de mudar vidas.
Todo este emaranhado de
vidas simples mas ricas, de inimizades, de perdas, de decisões difíceis e de
reflexões profundas faz-nos adentrar um mundo à parte, onde a simplicidade e a
complexidade andam de mãos dadas, como a sombra e a luz que habita cada um de
nós.
Sim, creio que uma das
principais certezas que ficou a pairar em mim depois de ler esta obra foi
precisamente esta: a certeza de que cada um de nós é dual, cada um de nós
carrega dentro de si as trevas e a luz, o medo e a coragem, o amor e o desamor,
a ira e a compaixão. Muitas vezes, carregamos medos pesados (como Ítaro), que
juramos que nos vão devorar mas que, afinal, à luz do dia, não passam de nada.
Muitas vezes, resvalamos da luz para a sombra, e de novo da sombra para a luz,
numa quase dança sincronizada e necessária para a vida.
E, por ora, chega de
reflexões. Fica apenas a recomendação desta obra sublime deste autor que
continua a ser uma das minhas referências literárias. Acredito que é uma óptima
forma de começar este 2020.

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